Expressar-se pela escrita vem se tornando uma técnica cada vez mais popular.

Escrever nos permite colocar em palavras experiências, sentimentos, traumas e dores difíceis de serem falados. Ajuda a sintetizar emoções e o que achamos saber sobre nós. Mas além de ser um modo de alcançar respostas emocionais e espirituais, nos últimos anos vem sendo comprovado o que há séculos escritores de diários e cadernos de memórias já sabiam: que escrever cura. 

“A palavra escrita tem um componente mágico que supera a reflexão interna”, afirma Adorna Castro (2013). Se pararmos para refletir sobre isso, pensar é realmente um ato caótico. Pensamentos são saltitantes, desordenados e velozes. Também podem ser frenéticos, incompletos ou mesmo enganosos.

Quando estamos com saúde, mal notamos que pensamentos “voam” pela cabeça sem muitas vezes fazer sentido ou completar um raciocínio. Mas quando não estamos bem, nossos pensamentos nos enjaulam em nosso universo mental. Não vemos claramente, não completamos nossas tarefas, nos bombardeamos com monólogos negativos.

A escrita é lenta quando comparada ao pensamento. Nos tornamos, ao escrever, “donos” da horda que mora na cabeça. Podemos não gostar do que escrevemos, mas agora a existência do que pensamos está (literalmente) em nossas mãos.

É assim que domamos de certa forma o que nos rouba a paz. O que torna a escrita uma ferramenta tão poderosa é que no papel podemos gerenciar melhor o que passa pela cabeça. Arrumamos a casa, colocamos um pensamento sob foco, amadurecemos nossas ideias porque escrever nos obriga a parar. Obriga-nos a entrar de forma mais cautelosa nessas “áreas escuras de nós mesmos, normalmente de difícil acesso” (Adorna Castro, 2013). Ao fixar o que antes “flutuava” na mente, moldamos palavras e assentamos o impalpável.

Além disso, escrever tem o poder de evocar imagens positivas na mente do cliente (tornando-se uma forma de lembrar coisas boas que ele/ela viveu);

escrever faz com que tenhamos a sensação de sermos ouvidos (condição central no processo de cura);

escrever é catártico, porém seguro;

escrever ajuda o paciente a se habituar com emoções difíceis para que elas percam o poder do impacto (habituação emocional);

escrever é uma ótima maneira de fazer a transição quanto a terapia se encerra.

Mas qualquer escrita cura?

Não.

Dez anos de pesquisas científicas conduzidas pelo psicólogo James W. Pennebaker concluíram que há uma forte conexão entre abrir-se a respeito de eventos traumáticos (sentidos como profundamente estressantes e emocionalmente difíceis) e mudanças positivas na mente e na função imunológica (no Brasil, seu livro foi traduzido como “Abra seu Coração” – Ed. Gente, 2006). No entanto, nem toda escrita mostrou-se benéfica.

Ele concluiu (e mais tarde outros estudos vieram a confirmar) que escrever simplesmente sobre tópicos triviais ou apenas desabafar seus sentimentos sobre um trauma – ou apenas descrever o trauma – não é suficiente para melhorar a saúde. Para melhorar a saúde, precisamos escrever detalhadamente, ligando sentimentos aos eventos. Quanto mais detalhada, organizada, atenta, vívida e lúcida a escrita for, mais saúde e benefícios emocionais ela trará. A chave, no entanto, está em unir sentimento e pensamento. Uni-los é essencial.

Mais recentemente, o livro O Poder do Sentido, de Emily Esfahani Smith, trouxe um novo olhar sobre a experiência de Pennebaker.

“Na pesquisa de Pennebaker, os participantes que mais se beneficiaram do experimento foram os que demonstraram avançar mais na busca de sentido. São essas as pessoas que a princípio tem as reações mais emotivas e cujas histórias são as mais desconexas, mas cujas narrativas se tornam mais serenas e perspicazes com o passar dos dias. Desabafar sentimentos à florda pele e recorrer a lugares-comuns, ele descobriu, não geram benefícios para a saúde. Mas a escrita constante e ponderada, sim. […] Através da escrita [essas pessoas] começam a entender como a crise se encaixa no grande mosaico de suas vidas. A busca de sentido e a narrativa são, portanto, maneiras eficazes de criar sentido a partir do trauma e, por fim, superá-lo.”

Ao que parece, é o sentido – a síntese – tirada do ato de organização e expressão dos eventos e emoções que proporciona a cura. Similar à pesquisa de Pennebaker, é isso que a prática do Reflexive Writing (escrita reflexiva) faz. Surgida da Teoria Narrativa, criada por White e Epstein na década de 90, a escrita reflexiva guia o paciente em direção às suas próprias respostas através da reflexão e autodescoberta, combatendo letra a letra a ansiedade e instilando esperança até que ele chegue ao bem estar.

Pouco comum no Brasil, a Terapia Narrativa é uma forma de psicoterapia que vê a vida do individuo em termos de histórias. Quando juntos, terapeuta e paciente exploram as narrativas que o paciente conta sobre si e como ele significa os eventos de sua vida. Dentro do que ele conta há as histórias dominantes (repetidas até que se tornem ponto central de suas vidas), histórias alternativas, etc.

Com o bem estar e a cabeça em ordem (alcançados pelo alívio trazido pela escrita) o paciente pode tomar decisões mais acertadas, reconhecer os padrões negativos que andam regendo sua vida e reforçar os aspectos positivos de si mesmos. Segundo esses teóricos, é isso que traz a cura.

 

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Um abraço,

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