Caminhantes,

Essa foi a primeira carta que recebi desde que anunciei nas minhas redes que escreveria de volta para aqueles que precisam de uma palavra de apoio. A intenção era ajudar, mesmo. Tentar aliviar um pouquinho a dor do mundo, usando aquilo que eu sei usar: as palavras. 

A carta dessa pessoa, que chamarei de “Amigo sem Norte ” (por causa de uma frase que ele mesmo utilizou), partiu meu coração. O que dizer para quem foi abusado quando criança, vive a eterna angústia da não aceitação e carrega dores pesadas há tantos anos?

Fragmentos da carta dele e a minha, na íntegra, estão ali embaixo. Espero que elas sirvam para amenizar seu sofrimento, e que ela chegue a outros que passam pela mesma angústia.

 

” Karina, 

A vida não me preparou, ou eu não me preparei para viver. Sinto muito, meu pai; sinto muito, minha mãe, mas seu filho falhou consigo. Estar numa área vulnerável, ser pobre e não poder ter acesso a uma educação melhor, a uma casa melhor, a roupas melhores, a ter uma TV e não assistir seu seriado favorito na porta da casa de seus vizinhos e amigos.

Acho que nunca gostei de mim. Sempre sofri Bullying, o que me transformou em uma espécie de estátua, abuso sexual. Hoje falo e encaro que o que aconteceu comigo não foi culpa minha, pois essa palavra: culpa, me acompanhou durante muito tempo, quando minha homossexualidade foi entendida, aceitada por mim demorou outros trocentos anos, mas mesmo assim a avaria estava lá, eu a acariciava e convivemos bem. Hoje melhor do que ontem. […] 

Descobri a religião afro num misto de assombro e encanto. Me ajudou no processo de aceitação de minha ancestralidade e de minha sexualidade. Nunca me expus, assumi. Tinha medo de minha mãe, que estava com a saúde ruim. Passar uma vida escondido na heteronormatividade me trouxe danos enormes. Insegurança e ansiedade me norteiam.

Tenho uma filha linda e ponto final, é para ela que luto agora, quero deixar algo de proveitoso para ela quando me for. Queria ter tido oportunidade de estudar mais, fiz pela metade muita coisa, porém o básico consegui. 

Entre altos e baixos tenho um relacionamento moribundo, que está na falência dos órgãos e com infecção generalizada. Ao mesmo tempo em que me trouxe coisas boas, me oprimiu psicologicamente, notei que alguns fantasmas que pensei exorcizados estavam à espreita e não reagi bem.

Tenho insônia e ansiedade. Depressão. Remédios que ajudaram no começo, mas que não ajudaram tanto assim. […].  Tento trazer minha esperança ao me cuidar e ao escrever e ler.

Nesse período que estou em São Paulo, minha solidão é só minha. […]  Estou só por opção a mais tempo do que me lembro, e por incrível que pareça não sinto falta. Minha líbido é nula, muito por causa dos remédios que tomei e muito também por minha causa. Hoje, não consigo me aproximar de alguém para sexo ou namoro. Bloqueei, Estou buscando saídas, mas só encontro rachaduras.” 

Abraços,

Amigo sem Norte

***

Querido Amigo Sem Norte,

Você me traz na sua carta toda a dor de um passado sofrido. Ela tatuou durante os anos alguns rótulos em você. Culpas que começaram cedo e nunca mais foram embora. Uma vida de poucas posses, uma sensação de deslocamento, e de não gostar de ser quem é — e que repercutiu de tantas formas nos rumos tomados nos anos que vieram: da vida passada, como você diz, “escondido na heteronormatividade“, até a união que descreveu vivamente como moribunda.

Sempre sinto um aperto no coração quando ouço sobre infâncias tristes e abusos. Aliado à pobreza, ao bullying e ao sentimento de ser devedor aos pais — a quem queria certamente agradar — você ainda sentia culpa. Culpa por ser quem é. Por ter sido abusado. Por não se encaixar. Tenho vontade de abraçar a criança que você foi, e dizer que vai ficar tudo bem. O problema é que as coisas nem sempre “ficam” bem. E embora ninguém saia incólume da infância, alguns saem definitivamente mais abatidos.

Ter passado por tudo isso transforma sua vida em uma batalha de dois lados: você luta com o lado de fora e o lado de dentro. Deve ser muito difícil, e um fardo pesado. Você seguiu adiante, eu li na sua carta, teve uma filha que ama, mas leva consigo essa tristeza inexplicável.

Perdoe-me por começar agora a falar em metáforas (gosto muito delas para não usá-las), mas te vejo agora, na minha frente, como um homem sem casa. Sem aquela habitação que nos protege das intempéries, sabe? Ao invés de construir uma casa onde se abrigar, você construiu ao redor de si uma caixa. Uma caixa de vidro, daqueles bem finos e que quando estilhaçam são afiados. E não são daqueles vidros transparentes das redomas e janelas, e sim daquele outro tipo, o que achamos nas delegacias de polícia, em que só um lado enxerga o outro. Esse vidro perigoso do qual é feita sua caixa faz com que você viva em constante agonia, porque acredita que o lado de fora enxerga tudo que guarda aí dentro, e o lado de dentro se vê o tempo todo, causando um constante estado de auto-consciência.

Você se sente desnudo frente ao mundo — estranho e deslocado, nas suas palavras, sendo constantemente lembrado de quem é pelo espelho distorcido que te circula.

Para complicar um pouco mais, sua caixa de vidro foi construída sobre chão instável. Ele balança de tempos em tempos, abrindo fendas no chão e transformando as falhas em perigos reais. O chão não manda aviso de atividade, portanto nunca dá trégua. Você vive sem segurança.

Mas esse é o chão que te foi dado.

É assim que vejo você no momento. Envolto em lâminas finas sob chão instável, sobrevivendo ao desconforto que é conviver com a imagem que as paredes não cansam de mostrar (e sabe deus que tipo de imagem um espelho tão próximo mostra).

Todos fixamos moradas sobre um chão. É fato que alguns ganham vista para o mar enquanto outros se equilibram em palafitas, mas todo mundo precisa saber lidar (nem que provisoriamente) com o terreno que foi oferecido. 

No entanto, essa caixa que cuidadosamente construiu à sua volta não é sua morada: é a sua prisão. Ela expõe mais do que deve — tanto ao mundo do lado de fora quanto o do lado de dentro — e está sempre sob o risco desabar. Você precisa sair daí, amigo sem Norte. Precisa abandonar esse contêiner, essa ameaça, esse reflexo distorcido.

Você imagina que se fosse diferente, não decepcionaria seus pais. Que, mais “adequado”, não teria sofrido bullying — e talvez tivesse sido poupado de outros abusos. Dessas primeiras impressões vem a culpa, e a sensação de que havia a alternativa “correta” de ser.

Só que você veio assim. E não deveria haver qualquer problema em ser assim: sua sexualidade, suas opções, sua forma de ser e de amar não são nem nunca foram erradas — e o mundo, esse campo de batalhas aos poucos enxerga isso (bem mais que antes, mais ainda não o suficiente).

De qualquer forma a sua casa é outra, Amigo Sem Norte. O lugar e a época onde nasceu podem ter te convencido de que ela era só o que você poderia ter, mas não é verdade. Ela pode e deve ter espelhos, mas não só isso. Ela deve ter paredes firmes — na verdade, ligeiramente maleáveis para aguentar os abalos sísmicos. Ela não vai ser construída por uma firma chique de arquitetura, e talvez nem mesmo a pontinha do mar você veja da janela, mas ela precisa ser construída com o que você tem.

E casas sólidas são construídas de cicatrizes, e não de feridas. Feridas só sabem construir caixas de vidro.

Você precisa sarar para montar esse lar, meu amigo. Esse é o primeiro passo.

Sua estratégia de ignorar a visão da janela que mostrava o que não valia a pena ver e abrir as janelas internas  — através da leitura, da escrita e da religião afro — te levaram a paisagens mais bonitas. Foram boas escolhas, passos certeiros para longe daquele lugar onde os terremotos são sentidos com mais intensidade. As três maneiras que achou para lidar com a dor são exímias professoras e guias do caminho.

E como guias, o que elas diriam sobre suas feridas?

Sobre aquilo que impacta na sua solidão, sua falta de libido e na presença dos fantasmas que mantém por perto? O que esses guias diriam sobre sua essência, e você ser o que é?

Tenho certeza que tem uma resposta, como tenho uma também.

Tem um poema de Tomas Tranströmer (que achei em um livro lindo chamado Pequenas Delicadezas) que diz mais ou menos assim: todos nós sentimos falta das alternativas. Daquilo que “na verdade não sabemos, mas sentimos: que nossa vida tem uma nave-irmã que faz uma rota completamente diferente” da que seguimos. Que rota teria sido essa? Como seria você, se não fosse gay, se não tivesse sido ferido, se não carregasse tanta culpa?

A autora desse livro reflete sobre essa trajetória imaginada e diz em seguida: “essa é a rota de um navio fantasma. O navio fantasma que não nos levou. Não há nada a fazer senão acenar da terra firme.”

No seu caso, do ponto mais distante possível do epicentro.

O primeiro passo para a cura passa pela aceitação de que ser quem você é é o único jeito de ser. E dessa conclusão precisa vir a aceitação de que está Ok ser exatamente assim, porque ser diferente é um navio fantasma.

Enquanto escrevo sua carta, Amigo sem Norte, lido com um problema pessoal de difícil solução: o medo da morte de uma pessoa que eu amo. Meu pai recebeu hoje um diagnóstico sombrio. Seu lobo frontal — uma imensa parte dele — foi destruída por um AVC. Enquanto ele luta no hospital — seu coração batendo forte, sua respiração entrando e saindo com a coragem dos sobreviventes — luta de certa forma em vão. Por que, em vão? Toda luta é válida, não?

Acontece que esse lugar atingido pelo AVC compromete algumas funções cognitivas importantes, como reconhecer os filhos, lembrar-se, falar, tomar pequenas decisões. Sua memória, capacidade de fala e atenção podem ter sido danificadas, e o quanto ninguém sabe. Tudo isso, se acordar, porque ele pode não sair dessa.

Ele pode morrer. Ele é, ouvi hoje, o caso mais grave da UTI.

Esse foi um pai maravilhoso para mim. Imaginar a sua morte me faz perguntar se fui uma boa filha para ele. E me lembro, então, da época em que fui terrível. Uma adolescente malcriada e respondona; uma criatura de difícil trato que não sabia lidar com um pai de ideias rígidas e conservadoras (reservadas especialmente para mulheres). E pensei que, caso esse AVC tivesse  acontecido naquela época, eu carregaria para sempre a ideia de que falhei com ele, e não correspondi às suas expectativas.

Mas veja só — e esse é o ponto dessa curva na carta — ele teve no ano 2000, 19 anos atrás, um infarto. Precisou ser operado às pressas, e antes da cirurgia, falou de morte comigo. Revelou números da conta, disse onde mantinha um dinheiro, que eu deveria cuidar dos meus irmãos — coisas de quem se prepara para partir de vez. Passamos por maus momentos naquela época. Mas ele sobreviveu a essa cirurgia, levou muito tempo para se recuperar, mas a sua maior melhora — sua transformação — acabou não sendo física. Sua maior mudança foi interior.

Meu pai, que nunca ouviu outras pessoas, passou a escutar. Perdeu preconceitos. Passou a trocar ideias com os filhos, a dialogar (não havia muito disso na casa), e a demonstrar mais amor. Seu amor por nós nessas duas últimas décadas foi explícito. Foi de aquecer o coração. E foi incondicional.

Já pensou se ele tivesse partido no ano 2000? Que tipo de culpa eu carregaria por não ter sido o que ele esperava de mim? Que memórias eu guardaria dele?

Isso me leva a pensar na culpa que você carrega por não ter sido o que esperavam que você fosse. E penso que você também deveria fazer esse exercício de imaginação. A imaginação de dar sobrevida aos que se foram na sua vida, e vê-los não mais sob a ótica da decepção, mas da mudança.

Dar crédito às pessoas e imaginá-las mudando com o mundo pode ser um tijolo para a sua construção. Por trás de toda mudança está a dor, por isso a mudança faz parte da ordem natural desse mundo sofrido. De dor em dor, construímos mundos. 

Não somos estáticos, nem um clique paralisado no tempo. Perdoe-se por qualquer coisa que acredita ter feito errado no passado, porque o mais provável é que outros também o perdoaram. Perdoe você também quem te fez mal: toda essa dor foi combustível suficiente para a mudança que precisa e deseja.

Seu medo da intimidade, do afeto e da paixão, assim como a insegurança e a ansiedade são sintomas de questões antigas, e melhorarão quando as feridas fecharem (porque sim, feridas fecham, não importa o tamanho delas). É esse verbo — sarar — que você vai ter que conjugar do seu modo, à sua maneira. Seja fazendo amigos (sua rede de apoio é mínima, e você sabe que ela precisa ser ampliada), matando de vez o relacionamento moribundo (talvez quem sabe enviando-o urgentemente para a UTI, para ressuscitação?) ou arrumando um emprego, que me parece ser no momento um tremendo problema pra você.

Aceite, contudo, que essa conjugação é possível. Que as dores agudas passam. Que passados podem ser diminuídos frente a presentes e futuros mais promissores. Que suas cicatrizes são bons construtores — de qualquer coisa. Que podemos fazer mais do que desistir. Que, como disse Cecília Meirelles sobre a solidão impregnada nas cartas de Rainer Maria Rilke ao Jovem Poeta, “o homem solitário pode preparar muitas coisas futuras porque as suas mãos erram menos.”

Você menciona no fim da sua carta que está buscando saídas, mas só encontra rachaduras. Veja só, a palavra rachadura vem bem a calhar. A rachadura, acredite ou não, também é uma saída, meu amigo. Não uma pronta, mas uma em vias de construção. É por ela que entrará a luz. O raio de sol que clareará tudo ao redor quando finalmente se livrar dessa caixa que te prende à imagem distorcida de vc. E por que não acreditar, já que estamos brincando com metáforas, que essa rachadura não se transformará em uma saída justamente por causa dos abalos sísmicos próprios do seu chão?

Por fim, deixe-me explicar por que disse, no começo da minha resposta, que as coisas nem sempre “ficam” bem. Fiz questão de colocar o verbo ficar entre aspas, porque “ficar bem” é passivo demais para o que a frase diz. As coisas não “ficam bem:” é a gente que muda a vida para que elas fiquem melhor. Emily Dickinson escreveu muito tempo atrás que,”se sua coragem negar você, você deve superar sua coragem”.

Acho um bom conselho. Se tiver que seguir qualquer um, siga esse.

Com amor,

Karina

***

Atualização: no dia seguinte ao envio da carta, meu pai faleceu. </3

Paige Bradley, “Expansão”

One Comment

  1. Daiane-Reply
    junho 27, 2019 at 11:04 am

    Bom dia!
    Acabei de ler esse lindo post e, mesmo não sendo boa com as palavras, senti a necessidade de falar alguma coisa, pois estou imensamente tocada.
    Obrigada ao amigo sem norte por compartilhar conosco o que se passa (e passou) no seu coração, pois assim pude olhar também para o meu próprio e refletir!
    Karina, obrigada por demonstrar, através de palavras tão lindas, que existem outras saídas, paredes, terrenos e espelhos ao nosso alcance.
    Estou emocionada com tudo que li aqui e torço para que o amigo encontre, através das palavras da Ka, um norte e que saiba que não está sozinho nessa busca, pois as feridas que temos podem ser diferentes, mas a necessidade de cura é igual.

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