Olá, Caminhantes!

Na continuação dos assuntos que trato no Curso de escrita Terapêutica online, está o módulo sobre a escrita que não vem.

Céus, como sabotamos nossa escrita. Como inventamos formas de não sentar e escrever. Deixamos que todo tipo de pensamento entre na frente desse momento; duvidamos de nossas capacidades, lembramos de coisas para fazer. Você é assim? (pra falar a verdade, não conheci ainda quem não fosse!)

Se te consola saber, é natural que isso ocorra. Escrever sem a interrupção da mente não é fácil, e alguns têm mais dificuldade que outros. Nosso cérebro é um órgão metido, um tipo de síndico que acha que controla os moradores do edifício que chamamos de “eu”. Portanto, assim que a gente decide começar a escrever – compra a caneta, o caderno e senta na frente do papel – ele dá as caras. Vai chegar perguntando que reunião é essa que você está tentando ter consigo mesmo (a). Que história é essa de ‘empurrá-lo para o lado’ para ver o que poder ser criado.

“Nada sai sem minha permissão”, ele determina. ‘Precisa passar antes pelo meu crivo implacável.”

É aí que mora a necessidade de destinar um módulo inteiro à nossa mente racional – e mais especificamente, aos nossos censores internos. Esse “coordenador’ da zona que é existir – na mesma medida imprescindível e sabotador – vai fazer de tudo para você não tentar. Ah, mas ele não será claro e direto: ele é o rei dos disfarces. O mestre da camuflagem. Seu censor vai tentar te convencer de mil modos diferentes que escrever não vai dar em nada, por isso é melhor desistir.

O primeiro segredo da escrita terapêutica é esse: para que a escrita tenha a chance de se tornar terapia, precisamos afastar os pensamentos na hora de escrever. Deixá-los do lado de fora da sala de reunião.

Mas Karina, dá para escrever sem pensar? Sem saber o que vai sair, já que escrever passa, necessariamente, pela função cognitiva do pensamento?

Sim, dá.

Não só dá, como é feito há muitos anos. Precisamos afastar da cabeça, ao escrever, qualquer tipo de censura. Qualquer crítica e julgamento. Na verdade: devemos afastar qualquer pensamento. Em seguida (ou concomitantemente) precisamos afastar as regras e normas que aprendemos na escola: forma, início, meio, fim, coerência, pontuação. A escrita nesse primeiro módulo tem a função de aquecer as mãos e introduzir um novo processo. Ela é um prelúdio para a escrita posterior – mais articulada, e quando necessária, reflexiva, profunda, coesa e cheia de sentido. Escrever como quem salta sem paraquedas sobre o papel é abrir um caminho até o nosso interior. É o que virá lá de dentro, bem lá de dentro, que queremos. 

Precisamos entrar nesse lugar – anterior ao pensamento e ao raciocínio – para sentir como a escrita tem o potencial de surgir. Se nunca fizermos isso, ela obstruirá nosso pensamento, suprimirá nossa espontaneidade e atrapalhará nossos insights. O pensamento censura o que pede para vir à tona. Quando o deixamos atrapalhar nossa entrega no papel, nossos textos saem acanhados e tímidos. Superficiais e retraídos. Quando tiramos de cena o raciocínio e “saltamos” sem preocupação alguma em frear a queda o que surge “é uma energia crua, um pensamento selvagem”, diz Natalie Goldberg.

Mas por que resistimos tanto?

Existem dezenas de explicações para isso, mas vamos nos ater a esta: o novo sempre nos despertará resistência. Remexer em memórias antigas, lançar um texto para o público avaliar, falar sobre uma dor inédita? Não, obrigado, diz o síndico. Para ele, novo é igual baderna. Traz confusão e dor. O problema? Tudo que brota de uma incursão na escrita é algo novo.

Mas cuidado: saber das estratégias da mente para nos manter travados não transforma nosso cérebro-síndico em um vilão. Por milhares de anos ele se aperfeiçoou naquilo que, no fim, mais importa para a gente: sobreviver. Comer, achar abrigo, cuidar da prole: isso garante a sobrevivência. Resolver problemas psicológicos? Isso não interessa muito ao cérebro, preocupado com assuntos mais urgentes. Ele simplesmente discorda da sua tentativa de mantê-lo afastado, e tenta a todo custo te levar de volta à zona de conforto, onde os monstro não atacam e a segurança é total.

Quando decidimos escrever, o que nos incomoda, dói, fere ou magoa vai pedir para sair. Nossas dores querem ser vistas e lembradas, querem ser recontadas, e ao sentar para escrever, estamos dando a elas a chance de saírem.

“Quando deixamos de temer nossas vozes interiores, também deixamos de temer nossos críticos exteriores. Além disso, essas vozes nada mais são do que guardiões e demônios a proteger nosso verdadeiro tesouro, os primeiros pensamentos da mente.” – Natalie Goldberg, Escrevendo com a Alma, 2016

Nesse primeiro módulo, tudo girará em torno dessa censura interna. Você descobrirá que pensamentos são esses, que padrão eles tomam, dará uma cara ao crítico, entenderá o seu papel. Esse é um passo necessário e profundamente curativo por si só. Para chegarmos à calmaria interna, precisamos conhecer esses pensamentos e trazê-los à vista. Quanto mais a fundo os conhecermos, mais fácil será ignorá-los. Depois de um certo tempo, essas censuras – as frases depreciativas, o desânimo – tornam-se apenas um mero ruído de fundo. Se permitirmos que elas atrapalhem, nossa mão irá parar de escrever e justificaremos nossa desistência com um disfarce racional: “isso não é para mim”.

É sobre isso e um tanto de coisas mais que falo no primeiro módulo do curso de escrita terapêutica. Lá a gente pula no papel sem paraquedas.

Se você quiser saltar, estarei aqui esperando! Se quiser perguntar mais que tipo de escrita é essa, vem aqui conversar! (ou me segue no Insta @ocaminhointerior )

 

Com amor,

Karina

 

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