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Essa carta foi inspirada por uma tirinha que chegou anexada a um e-mail do elephantjournal. O Elephant é um site que trata de tudo um pouco, dá ótimas dicas de como adquirir bons hábitos e traz vez ou outra imagens maravilhosas.

No e-mail de hoje, veio uma imagem que mexeu muito comigo. Tive um pós parto terrível, angustiante e triste. Aproveitei o sentimento de desconforto e escrevi esse texto, usando aquilo que afirmo ser curativo: escrever. Escrever para alguém.

Uma carta.

“Você não acha que esta é a melhor época de sua vida?” “Claro” ... meu bebê estaria melhor com outra mãe. Eu acho que cometi um erro terrível. Acharei meu bebê morto na cama. O meu bebê cairá da cadeirinha, em uma vala. Eu sempre acho que derrubarei o bebê no cimento ao descer o lance de escadas. Acho que não sou boa o suficiente para ser mãe…

 

“Querida Karina,

 

Você acabou de ter seu primeiro filho, e tudo o que pensa agora é: como faço para sumir?

Tá osso, né? Eu sei.

Mas eu começo essa carta dizendo algo que só sua mãe disse, mas você não ouviu: vai passar.

As noites de puro desespero por falta de sono, a vontade de desaparecer madrugada afora, a pé e sem destino para fugir do choro que não sabe nomear.  Vai passar.

A mágoa que você sentiu das mães que ficaram horrorizadas quando você tentou – veja bem , apenas tentou – dizer que não estava feliz. Vai passar.

A vontade de esganar quem perguntou se era “tão maravilhoso como parecia”, ou apenas afirmou: “É maravilhoso, né?”

Ufa, ainda bem que você não matou ninguém.

Você se sentiu ludibriada pela maternidade, essa é a verdade.

Não, aqueles três primeiros meses não foram maravilhosos. Você sentia ansiedade toda vez que te deixavam sozinha com o seu filho. Você preferia trabalhar a ficar em casa. Você andava para lá e para cá no apartamento pequeno. Queria que o tempo passasse mais rápido. Que seu filho já tivesse seis meses. Tudo isso passou pela sua cabeça e anuviou seu coração. Você se sentia mal por pensar assim, como se uma sombra tivesse caído sobre você, como se você fosse ruim, péssima mãe, um embuste entre as mulheres. A sombra que outros viam como colorida só você enxergava acinzentada.

Hoje sei que você teve depressão pós parto, não tratada, e nem desconfiou. Você não era pessoa do tipo que deita e chora. E no mais, acreditava que se a maternidade era boa para a maioria, você faria ela ser boa para você também.

O que você e eu não sabíamos é que a nossa mente não gosta desse tipo de resistência. Você faria dar certo porque sentia, ao mesmo tempo que agonia, amor pela criança. Um amor tão grande que parecia ter o tamanho do mundo. Mas sua vida era tão diferente antes do bebê… até os trinta e dois foi solteira, morou fora, conheceu o mundo, estudou, trabalhou, viveu a vida perfeita. E então, quando estava para dar aquele salto em direção ao sublime, cai e se estatela no chão. O sublime é um porre (mentira: o porre é melhor)

É por isso que eu escrevo de novo: vai passar.

A segunda frase é: não acredite no que falarem para você. Cada experiência da maternidade é única. Muitas falam maravilhas do puerpério porque esqueceram quão difícil foi. Ou então, porque deram novos sentidos à experiência. Recontaram a história tantas vezes que, a cada vez, ela foi ficando mais polida e reluzente.

É nesse recontar que colorimos memórias com outras cores. Não há nada de errado com isso, essas memórias só foram editadas. Porque sim, a vida é uma ilha de edição, e transformamos épocas difíceis em incríveis narrativas de superação. Quer provas? Olhe suas fotos antigas e me diga: por que os dezesseis seriam a melhor época da sua vida?

A verdade é que essa capacidade de recontar uma época de maneira mais positiva é um presente. Por isso, ao invés de querer degolar a sogra que não entende seu choro, lembre-se que a vida agiu sobre ela. As memórias, em sua incrível ciranda, reordenaram-se. Restituíram imagens, vestiram memórias de roupas de festa, maquiaram as partes chatas. Mais tarde essa época será lembrada de forma diferente. Quanto mais longe seus filhos (já grandes) estiverem, mais as pintaremos com as cores dos melhores sentimentos.

Vai passar, acredite. Vai ficar mais bonito também.

E eu diria àquela mulher que chora escondido enquanto embala o filho que leia menos sobre a maternidade. É um contra-senso, estou falando mal do que estou fazendo nesse exato momento, mas é verdade. Siga a sua intuição, esteja em dia com as consultas médicas, mas não procure saber o que outras mães estão fazendo. O mundo do lado de fora sempre terá uma sopinha melhor, um produto orgânico melhor, um berço mais seguro, um carrinho mais resistente, uma mamadeira que não deixa passar ar. Até que você tenha saído desse período de tristeza e confusão, não leia demais sobre o que os outros estão passando (a menos que estejam passando o mesmo que você, ou seja, perrengue.) Mais tarde você será engolida por esse mundo, não se preocupe. Você falará mais do que gostaria sobre berços, carrinhos, colheres, mamadeiras e livros didáticos. Por isso, Karina, se eu pudesse conversar com você daqui do futuro, diria para fechar as mídias sociais e abrir (no seu pouco tempo livre) um livro. Ou vá ver um filme bem bobo na TV. Escreva sobre o que sente. Brinque mais com a sua cachorrinha (você ainda não sabe, mas ela só viverá mais sete anos.)

Vai passar, e vai ser melhor que você imagina quando isso acontecer.

O bebê que não desgruda de você adorará correr. Ele terá olhos que derreterão seu coração. Ele adorará tudo que você gosta, e tudo que seu marido gosta (ele vai ser nota dez – bom trabalho, garota!)

“Precisa de alguma coisa?” “Não” …eu preciso de uma comida caseira. De um banho. De um tempo para mim mesma. De alguém que entenda quão sobrecarregada eu me sinto às vezes. Ei preciso de tempo, descanso, ajuda, comida, abraços, suporte, cookies, silêncio, ajuda com as roupas, com a limpeza, com a cozinha. Eu preciso de reconhecimento, compreensão e suporte…

 

Ah, e tenha mais paciência com o seu marido. Ele não entende você, e nem tem muito como entender. Ele não gestou, pariu, nem foi atropelado por hormônios. Quando as coisas ficarem muito ruins e você acusá-lo de não entender, lembre-se que ele tentou. Muito. Lembre-se de um momento especial entre vocês, um ao qual você pode sempre recorrer quando tudo parecer ruim. Um momento que fez você olhá-lo com candura por meses seguidos. Lembre-se de você na mesa de parto, no momento em que o bebê saiu. Os médicos perguntaram para ele: “não quer acompanhar o bebê, papai?” E ele olhou para você e balançou a cabeça: “não, vou ficar com ela”.

Ah, Karina: é difícil para as outras mães também. Sei que não parece, mas é. Não acredite em nenhuma história maravilhosa, tampouco julgue quem age de maneira estranha. Está todo mundo passando por um perrengue nesse começo.

E quando o seu filho acordar pela terceira ou quarta vez na noite e você achar que vai endoidar, abrace-o bem forte. Olhe para os bracinhos estendidos pedindo colo. Note como eles dormem derretidos sobre os seus ombros, serenos. Daqui a uma década o seu mais velho ganhará cecê e chulé. O amor será diferente. Forte como nunca, mas nunca mais tão doce.

Uau, tem tanta coisa que eu amaria contar para você.

O futuro é diferente, e é bom. Tempos difíceis virão, mas suas crianças estarão com você. Vai ser difícil da segunda vez também, mas você saberá uma ou duas coisas sobre depressão pós parto, médicos dispostos a dar uma mão, amigas que encaram o tranco com você, e uma certa resiliência que vem com a bendita – bendita! – idade. E pare de se culpar por odiar parquinhos. Isso nunca vai mudar.

Então é isso.

Eu adoraria receber cartas do futuro também. Queria que a Karina de amanhã me contasse como vai ser quando eles sumirem com os namorados ou decidirem morar em outro país. Saber se minha nora ou meu genro gostarão de mim. Se pensarão em me degolar, eventualmente. Mas a carta ainda não chegou aqui. Quem sabe um dia ela não vem?

Ah, uma última coisa, talvez a mais importante de todas: vão inventar no futuro uma coisa chamada Ipad. Ele é quadrado, finge ser computador mas não é. Essa merda não é de Deus. Não compre, sério. E não deixe que seu marido compre. E principalmente, jamais deixe seu filho saber o que é.  De nada.

Com amor,

Karina”

 

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2 Comments

  1. outubro 31, 2017 at 11:14 pm

    Adorei. Mas chorei no desenrolar da carta. Karina, e se a gente pudesse realmente escrever uma carta para gente mais jovem tanta coisa teria sido diferente. Sua linda, obrigada por compartilhar algo tão intimo assim. Sim, sim… Ipad não é de Deus, hahaha.

    • ocaminhointerior-Reply
      novembro 2, 2017 at 4:51 pm

      É verdade, Poliana, quantos erros teríamos evitado! Mas quem seríamos hoje? Uma versão pior de nós mesmos, talvez. Erros são bons. Eles fazem a gente se importar mais. Obrigada por comentar! <3

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