Olá, caminhantes!

Eu sei, há tempos não escrevo por aqui.

Não é por mal, é que ando escrevendo e lendo muito fora daqui. E hoje acordei com vontade de contar as boas novas, então aí vai: vamos ter curso de escrita terapêutica online! (pra quem não sabe, dou o curso presencial sobre escrita terapêutica na cidade de Vitória!).

Dizem que não devemos falar das coisas antes delas acontecerem (traz azar!) mas sempre, desde criança, pensei o contrário: é porque falamos delas que elas acontecem. Não sobre aquela semente de ideia que ainda está germinando e precisa de cuidado, não sobre aquele projeto que ainda não tem contorno e precisa da energia dos silêncios. A gente tá liberado pra falar quando aquilo que planejamos já respira sozinho e dá seus primeiros passos. Quando é hora de oferecer a ideia ao redor, para que aqueles que se encantam pelo mesmo que você se aproximem.

É isso, então. Estou com o projeto encaminhado. A oficina presencial foi mil vezes melhor que eu esperava, os resultados foram lindos, potentes, honestos, reais. Não sou de fotografar muito ou postar demais – acredito que alguns segredos só se revelam no peito, e sua luz é grande demais para caber em uma foto. E no mais, por essa energia ser tão verdadeira, acabamos esquecendo que existe um mundo virtual do lado de fora.

Breve, breve compartilho os módulos das oficinas, e sobre o que ela trata. Posso adiantar que se trata de você, do seu núcleo, da usina de ideias que habita em você, e da profunda certeza que tenho que, ao escrever, achamos o caminho até a paz.

Dito isso, quero compartilhar outra coisa aqui.

Há alguns dias acordei bem cedo (coisa rara) teimando que tinha uma história pra contar. Cambaleei até o escritório, e na penumbra dos primeiros minutos da manhã escrevi um conto muito, muito estranho. Havia alguma coisa ali – um sussurro, um chamado, uma semelhança com algo há muito ouvido e uma compreensão nova sobre uma história velha. Escavei minhas estantes e achei um livro que falava mais daquilo (Mulheres que Correm com os Lobos, da Clarissa Pinkola Estés, conhecem?) e li a lenda do Barba Azul. Meus olhinhos chegaram a brilhar. Era daquilo que eu estava falando, do que realmente está por trás dessas histórias. A partir de então, e lá se vão 13 dias, ando acordando cedo e escrevendo um conto diferente por manhã – às vezes, dois. Eles não são preparados antes, eu sequer imagino o que vai sair da cabeça quando coloco a caneta sobre o papel. Sei só que estão sendo alimentados pela leitura noturna do livro, por contos de fadas e lendas antigas, e guardados em mim numa zona de compostagem, de onde deixo nascer na manhã seguinte algo novo. Orgânico no sentido mais comum da palavra. Já estou no décimo quinto conto e já dei vida a uma contadora, uma cartomante, uma dona de casa que avista um bicho atrás da árvore, um livro que escreve a vida, duas irmãs gêmeas que se chamam Dia e Noite e uma versão muito íntima sobre todas as garotas de capas vermelhas antes de mim que precisaram entrar na eterna floresta escura da alma.

Rio do Inconsciente

Owen Gent – “Need a Guide”

É sobre o que elas procuravam – e eu procuro – que escrevo.

Chego finalmente ao tema que dá título ao post: que processo é esse que escolhe por nós?

Quem me conhece sabe que os processos me fascinam. Preciso sempre me afastar da tela do mundo, dar dois passos para o lado e espiar as engrenagens e parafusetas do que está acontecendo nos bastidores. E esse processo criativo, em especial, me fascinou muito. Meus contos matinais não foram algo despertados por um mergulho interno, foram o inverso: vieram de uma borbulha vinda do fundo, que por sua vez dispararam uma leitura (…e que por sua vez deram voz à histórias antes enterradas, e assim vai).

O que nos coloca, se pensarmos bem, em uma posição bem esquisita: será que realmente somos nós que escolhemos o que lemos?  Ou são livros que nos escolhem, de alguma forma?

Nem um nem outro, me diz a ‘veia engenheira’ que gosta de estudar os processos místicos que ocorrem em mim. Das minhas observações constatei – e abro sempre o coração para quem me trouxer outras respostas para perguntas tão belas – que a alma de um livro se comunica com a nossa. Eles tramam para que nos encontremos. Acenam como quem não querem nada da livraria ou da estante, e caímos como patos em seus braços. Felizes, sem dúvida. E lá vamos todos embarcados nesse fascinante rio subterrâneo que liga meu cais ao cais dos outros, navegando no rio que liga a todos em níveis profundos.

Estou em um barquinho auspiciosamente colocado à minha frente, onde embarco metade suspeita, metade eufórica. Para onde o rio leva? Para frente ou para trás? E se ele me levar à floresta escura da alma?

Muitos de nós anda recusando há tempos esse chamado, por medo do que pode encontrar. Chega um ponto que não dá mais pra dizer não: a gente precisa entrar na floresta. Embarcar no barquinho. Se deixar levar.

Por isso fiz questão de colocar esse amor e esse processo no curso que vem por aí. É um curso que vem desse rio, eu garanto, e que leva ao coração daquela floresta desconhecida que tanto evitamos.

Talvez não encontremos o que tememos por lá. Talvez tudo que precisamos são lobos que saibam, no escuro, farejar o caminho até onde repousa a avó de todas as respostas…

 

Mas isso é papo para depois. Beijos de contos de fadas a todos vocês <3

 

One Comment

  1. Marta Dopheide-Reply
    outubro 11, 2018 at 1:29 pm

    Karina! Tua mente é genial.
    Também acredito que há sementes dentro de nós esperando nosso amadurecimento para começarem a germinar.
    Tu és uma grande escritora!
    Parabéns!

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