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Acompanhando como sempre a delicada escrita do Brainpickings, deparei-me com uma (das muitas) reflexões de Maria Popova sobre livros infantis. Esses são sempre os meus preferidos. Existe alguma coisa nesses posts que aquece o coração. Talvez a forma delicada com que ela aborde as histórias, e conecte o desenho às palavras (ou à falta delas), e ambos a uma nostalgia do que ficou para trás. Nesse post em particular ela apresenta “O Coração e a Garrafa” (The Heart and the Bottle) e reflete sobre a perda, nossa estranha habilidade de encapsulação defensiva e o delicado processo de voltar a sentir. Deixo aqui o post original para aqueles que lêem em inglês e traduzo de forma livre esse delicado e colorido lembrete sobre o que ocorre conosco quando tentamos proteger demais o coração.

 

Em portuguès, “O Coração e a garrafa”, de Oliver Jeffers link Amazon aqui

 

“Crianças são os leitores mais atentos, curiosos, ansiosos, observadores, sensíveis, rápidos e geralmente agradáveis ​​na Terra”, afirmou E.B. White em uma entrevista, admoestando: “Qualquer um que subestime a escrita infantil está simplesmente desperdiçando seu tempo. Você deve escrever para elas, mas não subestimá-las.” Ainda assim, fingimos não escutar a sabedoria de White e a insistência de Tolkien de que não há o “escrever para crianças”, além da cruzada de Gaiman contra o desserviço espiritual de proteger as crianças de emoções difíceis.

Em lugar algum esse desserviço é mais claro do que na forma como abordamos a experiência das crianças nos momentos mais sombrios da vida […]. E em nenhum lugar existe um antídoto mais encorajador do que O Coração e a Garrafa (The Heart and the Bottle), do inimitável Oliver Jeffers.
Jeffers conta a história de uma menina “como qualquer outra”, cuja curiosidade expansiva e exuberante é alimentada pelo pai, que lê para ela todos os livros fascinantes sobre o mar e as estrelas e as maravilhas do nosso mundo.
Testemunhamos através das páginas as explorações felizes da dupla até que, um dia, percebemos que o pai se foi – a menina encontra-se de frente para uma cadeira vazia.”


“Com sutileza requintada e economia de palavras, Jeffers – cujo domínio da interação entre escuridão e luz se estende tanto ao pincel quanto à psique – silenciosamente revela o derramamento de emoções engendradas pela perda.

Mas se o sofrimento é tão desorientador e uma emoção tão esmagadora para os adultos, como os pequenos corações despreparados esperam lidar com seu peso? A menina não pode, e assim não faz.

Sentindo-se insegura, a garota conclui que é melhor colocar seu coração em um lugar seguro.

Só por enquanto.

Ela então o coloca em uma garrafa de vidro e a pendura em volta do pescoço.

E isso parecia corrigir as coisas … no início.

 

“Mas, como Simone Weil sabia – que resistir ao sofrimento cinde nossa psique – e Rilke também, quando escreveu que “a morte é nossa amiga precisamente porque ela nos traz à presença absoluta e apaixonada de tudo que está aqui, que é natural, que é amor “, a menina logo descobre que o bloqueio da dor também bloqueia sua capacidade de amor e vitalidade.

Embora, na verdade, nada fosse o mesmo.

Ela esqueceu-se das estrelas … e parou de prestar atenção no mar.

Ela não estava mais cheia de todas as curiosidades do mundo e não notava quase nada …

Um dia, enquanto caminhava na praia onde uma vez passava feliz com seu pai, a “menina” – agora uma mulher adulta – encontra uma garotinha ainda cheia da curiosidade ilimitada e flutuante. De repente, ela se lembra de tudo o que perdeu quando bloqueou a perda.
Propõe-se então a libertar seu coração de sua prisão vítrea – mas a garrafa foi fortificada por anos de autoproteção.”

 

 

A garrafa não pôde ser quebrada. Apenas saltou e rolou … até o mar.

Mas lá, ocorreu a alguém pequeno e ainda curioso sobre o mundo que poderia haver um jeito.

 

 

 

O coração foi posto de volta no lugar de onde veio. E a cadeira já não estava tão vazia.

 

* * *

De maneira delicada e verdadeira, o livro ensina às crianças que perder faz parte da vida, assim como sofrer. Não é fácil, e ninguém jamais dirá que conseguiu passar por isso sem dor. Mas a vida continua – ideia representada ali pela menina, sua curiosidade abundante e a mesma praia em que a garota agora adulta freqüentava com o pai. A vida eventualmente dá um jeito de retirar nosso coração da garrafa.

Perder dói, retalha, tritura – quem já perdeu sabe. Como meio de nos defendermos, nós encapsulamos e blindamos nossa alma. Em momentos de extrema dor, oscilamos entre querer alcançar uma mão amiga e nos recolhermos de todo o mundo, mas as defesas se tornam com o tempo cada vez mais eficazes.

Entra em cena o tempo e sua mágica.

Assim como as marés, a dor rescinde, e você abre (às vezes até mesmo por descuido e sem perceber) o gargalo de sua cápsula envidraçada.

Algo pode sair daí, ou entrar. Uma carta, um bilhete, uma declaração, um desabafo, o último diálogo não finalizado. A palavra de amor e carinho não dita.

Na garrafa, no lugar de nossos corações, cabe agora uma mensagem. E essa mensagem pode trazer de volta a graça do mundo.

 

Com todo amor,

 

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