Olá caminhantes,

hoje eu falo aqui sobre o módulo 2 do curso de escrita terapêutica: a escrita que brota da nossa percepção do mundo.

Quando nos abrimos para o mundo e nos assentamos nos inputs que os cinco sentidos nos apresentam, estamos deixando o passado e o futuro seguirem seu curso e permanecendo onde importa: no agora.

Confiem: o agora é bom. O agora é um porto seguro.

Não só para a escrita, mas para a sua vida.

No livro O Poder do Agora, Eckart Tolle afirma que o caminho para a felicidade e a iluminação está na aceitação do nosso tempo presente. Estar no presente implica não estar preocupado com o futuro, nem condoído pelo passado. Para o autor, o fato de passarmos a maior parte da vida remoendo o passado e planejando o futuro nos afasta do único tempo que realmente existe.

Por que batemos na tecla do “permanecer no presente” nesse módulo?

Além do motivo óbvio de querermos assim diminuir as ruminações (causada por excesso de foco no passado) e as ansiedades (excesso de foco no futuro), queremos que você aprenda a ancorar-se no presente. Estar no presente é ancorar-se nos sentidos, e os sentidos abrem caminho para as memórias.

Ué, Karina, mas se você está dizendo que devemos ficar no presente, por que quer abrir caminho até nossas memórias?

Por que é lá que moram as dores que queremos curar com a escrita. Nossas tristezas e nossas angústias. Lá reside, inclusive, a chave para a compreensão de nossas ansiedades. Só que não queremos que você salte em busca de respostas passadas sem um lugar sólido para retornar. Seu retorno sempre deve ser amparado pela respiração. Pelo tato, pelo olfato, pela riqueza de nosso momento presente. Escrever em direção à cura é tatear em temas doloridos. Precisamos nos sentir fortes o suficiente para retornar e continuar a caminhada.

Os sentidos são uma janela para a realidade externa na mesma proporção em que são portas de entrada para reinos interiores. Quando escrevemos no agora, ancorados nos sentidos, mergulhamos de forma profunda em nossas emoções. As emoções emergem de maneira afiada, nítidas, menos tingidas das cores ansiosas do futuro e das culpadas do passado. Podemos, firmes em nossa presença no agora, reler – e reescrever – narrativas que nos fizeram mal. Acentuar as que nos fizeram bem.

Escrever é uma forma de estar presente, mas revisitar tempos que se foram e virão. É sabe ir-e-voltar através dos sentidos. E o motivo de fazer isso é porque os sentidos são a via direta para o nosso centro emocional.

Quer um exemplo? Sente-se em um canto, sozinho(a) e no silêncio, feche os olhos e lembre-se de seu quarto de infância. Mergulhe nos detalhes. O que você guardava em caixinhas, no fundo do armário? O que havia no fundo das gavetas? O que repousava sobre a cama? Qual o cheiro de suas roupas ? Se você passasse a mão pela superfície das colchas, cortinas, almofadas, roupas dobradas ou amassadas na gaveta, o que sentiria? Experimente escrever reavivando a cena com os cheiros, os sons e a textura do lugar.  

É difícil retornar dessa viagem ao passado e não sentir nada.

Contudo, para que exista uma escrita verdadeira e curativa, precisamos do fio que nos conduzirá para fora do labirinto das memórias. Esse fio está na sensação de segurança do momento a momento presente. Na segurança do inspirar e respirar; do solo firme sob os pés, da ajuda que o tato consegue sentir, das palavras de apoio de quem está agora ao nosso lado.

Queremos trazer as memórias à superfície; queremos invocar as emoções para que saiam, e derramem-se sobre o papel. Queremos ouvir o que ficou guardado de nossas experiências, e o que temos a dizer, hoje, sobre aquilo. Mas queremos, acima de tudo, nos manter íntegros nessa volta. 

O problema é que nunca estamos realmente no presente. 

Por que o evitamos tanto? Por que temos essa fixação por fatos passados e eventos futuros?

Existem várias respostas para essa pergunta, e uma delas é que, se as sensações estão conectadas às emoções, evitar o presente é uma forma de fugir da dor.

Procuramos, por isso, evitar as circunstâncias que podem fazer as emoções brotarem. Se estamos tensos, abrimos mídias sociais. Ouvimos música alta, assistimos Netflix, procuramos preencher esses espaços presentes com atividades que nos ajudem a não pensar.

O barulho do mundo serve muito bem a esse propósito: o de abafar nossas angústias. Emoções difíceis erguem-se quando ficamos em silêncio, quando damos a elas espaços para saírem de nossos cantos e quinas. Na quietude, as ansiedades se intensificam e o medo tenta penetrar em nossos pensamentos. No silêncio a dor fala.

Se silenciamos nossas dores, elas não morrem. Elas voltam para o porão, no aguardo de um “buraco na tubulação” por onde consigam escapar: um estouro emocional, um choro, gritos, sintomas físicos. Escrever é descer ao espaço interior – ao porão, ao sótão onde mantemos trancafiadas as dores – para nos reconectarmos com a nossa história. Escrever é a via mais segura para deixar sair aquilo que em nós urge por escape.

O que o curso de escrita traz é um modo de retornar dessa incursão interna íntegros e renovados. Abertos a revisitar a dor, sabendo que estamos seguros no presente, e que a dor antiga é isso que ela verdadeiramente é: uma dor antiga, que pode ser revisitada, reescrita e ressignificada.

Dói, eu sei. E é difícil, também. Mas abrir a porta para a dor – trazê-la para a luz, observá-la sem as sombras misteriosas e assustadoras que ela projeta – faz com que seu poder diminua. É aceitando-a, de peito aberto, que reduzimos sua potência, e deixamos escapar a pressão que ela, trancafiada, causa.

Espero que tenham se reconhecido nessa escrita. Se quiserem saber mais sobre o curso, a página é esta aqui. 

 

Um grande abraço!

 

Karina

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