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Olá escritores!

Recentemente uma amiga me confidenciou que gostaria de começar a escrever. O quê, nem ela mesmo sabia, e isso não importava muito. Ela sentia que precisava escrever. Disse que sempre teve vontade de escrever um livro, mas não sabia o que colocar no papel. Que queria deixar algo para a prosperidade.

Quando a reencontrei dias atrás, ela falou que que havia começado a rascunhar algo, e que havia achado um tema que mexia o suficiente com suas emoções para dar aquele gás inicial que os novos projetos pedem: a biografia de sua avó.

Segundo me falou, sua avó foi uma mulher guerreira. Foi também piedosa, sofrida e generosa. Ela já tinha pensado em registrar suas histórias, chegou a gravar algumas entrevistas com ela, mas a ideia de escrever sobre a avó, ainda viva, parecia uma despedida antes do tempo. Ainda não era tempo de despedidas.

Só que um dia a avó teve um derrame e depois veio a senilidade. As histórias não eram mais coesas ou confiáveis, e seu plano de continuar e entrevistá-la foi deixado de lado. Um dia a avó faleceu, as gravações foram esquecidas e a história adormeceu. Até que foi acordada pela sensação de que era a hora. Hora de trazer sua avó à vida através do papel.

Quando ela me contou eu fiquei muito feliz. Ninguém faz ideia do que isso significa para mim, porque poucos sabem que por dois anos tudo que fiz foi respirar as palavras que minha própria avó me deixou de herança. Não foi exatamente uma herança passada de mãos em mãos (embora quem possa garantir que meu amor pela escrita não tenha vindo dela?) e sim um achado fortuito e inesperado, após a sua morte.

Quando a minha avó morreu, em 2010, eu estava morando nos Estados Unidos. Estava no meio do mestrado, no momento de escolher o tema da minha tese. Certo dia, meses após a sua morte, minha mãe ligou dizendo que havia achado uma coisa enquanto limpava seus armários. Bem lá no fundo, atrás de roupas e caixinhas de costura, ela desenterrou treze diários e uma autobiografia, escrita à mão. Minha mãe me conhece, sabe que aquilo despertaria o meu interesse. O que ela não sabia é que aqueles diários (o primeiro datava de 1928, o último, 1985) viriam a ser não apenas lidos, mas estudados à exaustão.

Praia de Sta. Helena, Vitória, ES. 1941

Minha avó escreveu sobre a sua vida, e eu sobre a dela. Passei de neta a curadora de suas memórias; ela, de avó a sujeito das minhas pesquisas.

Mas o que nos leva a querer contar as histórias de nossos avós?

Tenho notado que muitos neto(a)s e filho(a)s vem mostrando interesse em contar as histórias dos avós ou de seus pais. Querem que mais pessoas saibam das aventuras que viveram, das dores que carregaram, dos tempos difíceis que precisaram suportar. São histórias que ganham, nos tempos modernos de hoje, outras cores. Mulheres submissas aos maridos, homens de negócios que não existem mais, cidades que ficaram no passado. Fazer uma releitura de pessoas tão próximas, vistas sob a luz de novos tempos, causa tanto encantamento quanto assombro. Como eles conseguiram? Como alguém criou nove filhos? Como era possível viver apenas da lavoura? Como era a vida tendo apenas um sapato, ou apenas quiabo para comer no almoço? Essas histórias nos fascinam, não queremos que se percam. Queremos que sejam lembradas, compartilhadas.

Mas por que contar essas histórias importam?

Há uma explicação psicológica para a necessidade de botar no papel uma história, especialmente se essa história pertence a alguém que já partiu. Ao escrever, eternizamos as pessoas. Enganamos de alguma forma a inevitabilidade da morte e trazemos de volta à vida quem se foi.

Esse desejo não é novo: na verdade ele veio embutido em nós, mais ou menos como um equipamento de fábrica. Desde que existimos damos sentido ao mundo através de histórias. Escavações antigas mostram que Neandertais faziam enterros elaborados, onde compunham, com flores e pedras, narrativas sensíveis para seus mortos. Esse cuidado conta uma história: a de que alguém foi deixado ali, mas não esquecido. Nem os perigos de um mundo hostil impediam que esses primos distantes interrompessem suas jornadas para erguer símbolos que sagram o amor e as memórias de um tempo passado juntos.

A simbolização traz nossos entes de volta à vida da mesma forma que trouxe a do companheiro morto nas savanas, milênios atrás. Escrever as memórias de nossos avós, portanto, é garantir que eles não desapareçam. Que sua ausência seja transformada em presença através de palavras.

Se seus avós ainda estão vivos, você tem a chance de capturar essas narrativas em primeira mão. Sentar ao lado deles, ouvi-los e dar-lhes a chance de saber que continuarão a viver depois que partirem. Mas infelizmente, se seus avós já não estiverem mais entre nós, você pode tentar traze-los de volta pelo menos um pouquinho, através de suas memórias. Escrever essas histórias pode desencadear mudanças expressivas e benéficas na sua vida.

Minha avó (sentada à direita) e suas irmãs. 1941

Os 4 bons motivos para escrever as memórias de seus avós:

Você perceberá que a história de seus avós se relaciona à sua própria.

As memórias que acumulamos de nossos pais e avós são frações de histórias: Minha avó lecionava português no interior do Espírito Santo. Gostava de escrever. Quase morreu no parto de minha mãe. Fazia Pfefferkuchen (biscoitos alemães de pimenta) como ninguém. Meu avô passou tanta fome durante a Primeira Grande Guerra que jamais jogou um grão de arroz fora. Tinha tanta pena de bichos que acocorava-se ao lado das poças de chuva para salvar insetos.

Esses fragmentos de história tentam explicar quem eles foram, mas estão longe de explicar tudo. Na verdade, à medida que o tempo vai passando, a narrativa de suas vidas vai ficando cada vez mais constrita, condensada em três ou quatro histórias principais que repetimos automaticamente, quase sem senti-las.

Mas somos mais que memórias esparsas ou fragmentos narrativos: nós temos inícios, meios e fins. Quem foram nossos avós, em essência? Como foram influenciados pelo Zeitgeist da época? Pela cultura, geografia e condições sócio-políticas da região onde cresceram? Tudo que eles viveram, a forma como criaram seus filhos e as decisões que tomaram foram, de alguma forma, decisórias para a vida que temos hoje. Ao organizarmos suas histórias, entendemos de que material somos feitos. Ao não organizar suas histórias, perdemos um pouco da nossa própria.

 

Escrever organiza a mente (e a vida) e coloca os acontecimentos sob perspectiva

Pensamentos são caóticos. Eles vêm e vão, somem, são interrompidos, ressurgem do nada. Escrever é arrumá-los em uma narrativa coerente. Quando escrevemos os acontecimentos pelos quais passamos, sentimos diferença na maneira como pensamos. Escrever é organizar (-se), é “ajeitar as memórias na prateleira.” Colocar a história de nossos avós em uma linha de tempo é entender melhor a vida, seus percalços e oportunidades. É ver principalmente sua amplitude e aprender que depois da tempestade vem a bonança, que no fim tudo dá certo, que por pior que seja a situação, eles conseguiram superar e nós vamos conseguir também.

 

Escrever sobre seus pais ou avós pode fazer nascer nos seus filhos a vontade de escrever sobre você

Uma família que entende sua herança (tanto boa quanto ruim) conversa sobre ela. Explica seus eventos à luz da história, descortina a empatia, provoca a reflexão sobre suas ações, reações e mal-entendidos. Mostrar aos filhos que a história de nossos avós importa é passar a mensagem de que a nossa história importa também, assim com a deles. Se você tem curiosidade sobre seus avós, há uma boa chance de seus netos terem curiosidade sobre você.

 

Compreender o passado é a chave para a aceitação

Nem todos tiveram um passado que gostam de relembrar, e para esses, escrever a história de nossos pais e avós é ainda mais importante. Não podemos apagar as lembranças doloridas, mas podemos reescrevê-las sob uma nova ótica. Nada começa em nós. Às vezes, para nos (re) encontrarmos, precisamos voltar no tempo e curar a relação com os nossos familiares.  A procura por nós mesmos pode não começar em nossas raízes, mas certamente nos levará em algum momento até lá. Compreender porque o passado foi vivido de certa maneira é a chave da aceitação de quem somos e a chance de reconstruir nossa história. Este é o maior legado que podemos deixar para o futuro – seja para nós ou para nossos filhos.

 

Por onde começar

Uma das maiores desculpas que as pessoas dão para não escreverem (não apenas as memórias de alguém – qualquer coisa) é que não sabem por onde começar.

O conselho universal para isso é: simplesmente comece. Rabisque alguma coisa. Escreva uma lembrança qualquer.

Você não precisa começar do começo, do ano em que seus familiares nasceram. Você pode começar pela adolescência, por exemplo (os 14 e 15 anos são anos de formação, e deixam um efeito perene em nossas vidas.) O que seus avós diziam sobre essa época? O que estava acontecendo no Brasil e no mundo?

Uma outra ideia é determinar um tema para a narrativa. Seu avô veio como imigrante para o Brasil? Passou necessidades, perdeu tudo e recomeçou do zero? O tema de sua história pode ser perseverança. Sua avó foi uma mulher bem sucedida para a sua época? O tema pode ser a quebra de tabus. Todos nós adjetivamos histórias de vida. Adjetive a dos seus avós e escreva algumas páginas sobre histórias que exemplifiquem a sua escolha.

Outra boa maneira de começar é pensar em marcos da história de nossos avós. Onde estavam durante a Segunda Guerra? Que escolhas foram forçado(a)s a fazer que acabaram moldando a trajetória de suas vidas? Quando tiveram filhos, e quando vieram os netos? Já foram muito ricos ou muito pobre? Ganharam ou perderam rápido suas riquezas? Qual foi o ápice de suas carreiras? E de suas relações pessoais? Que objetivos não alcançaram na vida? Que legado deixaram? Como acha que eles gostariam de ser lembrados?

E existem aquelas perguntas que tocam fundo, filosóficas por natureza, que são ótimas para finalizações e grandes descobertas. Estas dizem respeito a nós, também.

Que efeito nossos avós tiveram no mundo? Como seria o mundo se eles não tivessem existido?

 

Espero que essas perguntas tenham feito você pensar em eternizar seus avós. Se já fizeram algo parecido, por favor me contem ali embaixo, nos comentários!

 

Fiquem em paz!

Com amor,

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